O jejum é uma das práticas mais mencionadas na Bíblia e, ao mesmo tempo, uma das menos compreendidas hoje. Alguns o tratam como uma "técnica" para conseguir o que querem de Deus. Outros o consideram coisa do passado. As Escrituras nos apresentam um caminho mais sóbrio: o jejum é uma forma de humilhar-se diante de Deus, de buscá-lo com mais atenção e de fazer da oração um ato que envolve o corpo todo. Neste guia, veremos o que a Bíblia diz, como praticar com sabedoria e quais cuidados com a saúde são necessários.
O que é jejum bíblico e o exemplo de Jesus
Jejuar, na Bíblia, é abster-se de alimento, por um tempo determinado, com o propósito de buscar a Deus. Não é dieta, não é desafio de resistência e não é uma moeda de troca. A abstenção do alimento é o sinal exterior de uma atitude interior: dependência, humildade, arrependimento ou súplica.
Vemos o jejum em diversas ocasiões nas Escrituras. O povo jejuava no Dia da Expiação (Levítico 16.29, onde se ordena "afligir a alma", expressão que a tradição judaica e muitos intérpretes entendem como jejum). Ester pediu que o povo jejuasse por ela antes de se apresentar ao rei (Ester 4.16). Neemias jejuou e orou ao ouvir sobre a ruína de Jerusalém (Neemias 1.4). O profeta Joel convocou o povo a voltar ao Senhor com jejum, choro e lamento, e acrescentou: rasgai o coração, e não as vestes (Joel 2.12-13). Na igreja primitiva, a igreja de Antioquia jejuou e orou antes de enviar Barnabé e Saulo (Atos 13.2-3), e Paulo e Barnabé oraram com jejum ao designar presbíteros (Atos 14.23).
Antes de começar o seu ministério, Jesus jejuou quarenta dias e quarenta noites no deserto (Mateus 4.2). Mais adiante, quando perguntado por que os seus discípulos não jejuavam, respondeu que os convidados do noivo não podem estar de luto enquanto o noivo está com eles, mas que dias viriam em que o noivo lhes seria tirado, e então jejuariam (Mateus 9.15). O jejum da igreja, portanto, está ligado à espera por Cristo e à busca da sua presença.
Observe também a expressão de Jesus no Sermão do Monte: "quando jejuardes" (Mateus 6.16). Ele não diz "se", mas "quando". Pressupõe que seus discípulos jejuarão. Não há, porém, uma ordem fixa sobre frequência ou duração. Isso nos dá liberdade, mas também responsabilidade para praticar com discernimento. O jejum de quarenta dias de Jesus, aliás, é um episódio singular e não um modelo para ser reproduzido por qualquer pessoa.
Mateus 6.16-18: o jejum em secreto
Aqui está o ensino central de Jesus sobre o assunto. Ele critica aqueles que jejuavam para serem vistos: mostravam um rosto abatido para que as pessoas os admirassem, e com isso já tinham recebido a sua recompensa (Mateus 6.16). Então instrui: ao jejuar, unge a cabeça e lava o rosto, para que a prática não seja notada pelos homens, mas pelo teu Pai, que está em secreto, e ele, que vê em secreto, te recompensará (Mateus 6.17-18).
A pergunta que esse texto levanta é: para quem estou jejuando? Se o jejum serve para exibir espiritualidade, perde o sentido. Se serve para aproximar-me de Deus, ele vê e responde conforme a sua sabedoria. Note que Jesus não prometeu um resultado específico, como cura ou prosperidade. Prometeu a recompensa do Pai, que é o próprio Deus que vê o que está oculto.
O jejum não obriga Deus a nada. Ele muda quem jejua.
Isaías 58: o jejum que Deus escolhe
O povo de Israel jejuava e se queixava de que Deus não via. Em Isaías 58, o Senhor responde mostrando que o jejum deles era acompanhado de injustiça, discussões e opressão dos trabalhadores. O jejum que ele deseja tem outra aparência: soltar as ligaduras da impiedade, desfazer os jugos pesados, deixar livres os oprimidos, repartir o pão com o faminto, acolher em casa os pobres desabrigados e vestir o nu (Isaías 58.6-7).
Esse texto protege o jejum de virar mero ritual. Jejuar sem amor ao próximo é um erro. Quem abre mão de comida deve também abrir a mão para quem passa necessidade. Uma boa pergunta ao final de um jejum é: o que mudou na minha forma de tratar as pessoas?
Tipos de jejum
A Bíblia não apresenta um único modelo. Os formatos mais comuns, a partir dos relatos bíblicos e da prática da igreja, são:
- Jejum total ou absoluto: sem alimentos, por um período curto, como nos três dias de Ester (Ester 4.16). Em alguns relatos, inclui também a abstinência de água. Esse tipo de jejum é o que mais envolve riscos e não deve ser feito sem orientação médica.
- Jejum parcial: abstenção de certos alimentos. Daniel, num período de luto, deixou de comer pão delicado, carne e vinho (Daniel 10.2-3).
- Jejum de uma refeição ou de um período do dia: uma forma acessível de começar, trocando o horário da refeição por oração e leitura.
- Jejum coletivo: quando a comunidade se humilha junta, como nos dias convocados por Joel (Joel 2.15-16) e na igreja de Antioquia.
- Abstinência de outras coisas: embora a Bíblia fale principalmente de comida, muitos cristãos abrem mão, por um tempo, de telas, redes sociais ou entretenimento para dedicar esse espaço à oração. É uma prática legítima de disciplina, desde que não seja confundida com o jejum bíblico no sentido estrito.
Cuidados com a saúde
Jejuar é uma prática espiritual, mas o corpo continua sendo o corpo. Alguns cuidados são indispensáveis:
- Se você tem qualquer condição de saúde, procure um médico antes de jejuar. Isso vale especialmente para quem tem diabetes, pressão alta ou baixa, problemas cardíacos, renais ou gástricos, quem usa medicação contínua, quem teve ou tem transtorno alimentar, gestantes, mulheres que amamentam, idosos, crianças e adolescentes.
- Comece com períodos curtos, como uma refeição ou um dia, e não com jejuns longos.
- Mantenha-se hidratado, salvo orientação diferente de um profissional.
- Não interrompa medicamentos por conta própria por causa do jejum.
- Ao quebrar o jejum, volte a comer de forma leve e gradual.
- Se sentir tontura intensa, mal-estar forte, desmaio ou qualquer sintoma preocupante, interrompa o jejum e busque atendimento. Deus não se agrada de quem põe a saúde em risco por zelo mal orientado.
Quando o jejum alimentar não for recomendável, existem outras formas de buscar a Deus com seriedade: reservar tempo extra de oração, abster-se de determinados hábitos, dedicar-se a servir. O coração é o que importa (Joel 2.13).
Como começar de forma simples
- Defina o propósito. Buscar direção? Arrepender-se? Orar por alguém? Escreva em uma frase.
- Escolha um formato curto e viável, sempre respeitando a sua saúde.
- Reserve tempo para orar e ler a Palavra nos horários em que normalmente comeria.
- Faça em silêncio, sem anunciar, como Jesus ensinou.
- Termine com gratidão e anote o que Deus lhe mostrou, sem exigir um resultado imediato.
O jejum não é um atalho para conseguir o que queremos. É uma maneira de lembrar que "nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus" (Mateus 4.4), palavras ditas por Jesus justamente em seu jejum no deserto. Se você ainda quer entender melhor a vida de oração, veja o texto sobre o Pai Nosso explicado frase por frase e o estudo do Sermão do Monte, onde Jesus fala de oração, jejum e esmola.