Quem perdeu alguém sabe que há dores para as quais não existe frase pronta. Ao longo dos anos, muita gente bem-intencionada diz coisas como "foi vontade de Deus", "agora ele está num lugar melhor" ou "você precisa ser forte". Nem sempre ajuda. A Bíblia, aliás, tem muito mais cuidado com quem sofre do que costumamos ter. Ela dá lugar às lágrimas, não pede que ninguém finja e aponta, devagar, para uma esperança que não nega a dor. Este artigo não pretende encerrar o seu luto, mas oferecer companhia.
Jesus chorou
Um dos versículos mais curtos da Bíblia em português é também um dos mais profundos: "Jesus chorou" (João 11.35). A cena acontece diante do túmulo de Lázaro, amigo de Jesus. As irmãs, Marta e Maria, estavam de luto. O texto diz que Jesus se comoveu profundamente e se perturbou (João 11.33). E vale notar um detalhe: Jesus sabia que ia ressuscitar Lázaro. Ele mesmo havia dito aos discípulos que ia despertá-lo (João 11.11). Mesmo assim, chorou.
Isso diz muito. Chorar diante da morte não é falta de fé. A morte é um intruso no mundo que Deus criou, e o Filho de Deus não a tratou com indiferença. Se Jesus chorou, não precisamos nos envergonhar das nossas lágrimas, nem pedir desculpas por sofrer.
No mesmo capítulo, Jesus disse a Marta: "Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá" (João 11.25). A esperança cristã não se baseia numa ideia vaga sobre o além, mas numa Pessoa. Mais tarde, o próprio Jesus venceria a morte na cruz e na ressurreição.
Os Salmos dão voz ao lamento
Quem lê os Salmos descobre que a oração bíblica inclui lamento. Há salmos que perguntam "até quando?", como o Salmo 13, e há salmos que terminam sem uma resolução confortável, como o Salmo 88, que permanece quase inteiro na escuridão. O livro de oração do povo de Deus não esconde a dor. Isso significa que você pode orar com sinceridade, mesmo quando só consegue dizer "Senhor, dói".
- O Salmo 34.18 afirma que o Senhor está perto dos que têm o coração quebrantado.
- O Salmo 56.8 fala de um Deus que registra as aflições e guarda as lágrimas de quem sofre, como se nenhuma delas passasse despercebida.
- O Salmo 23.4 diz que, mesmo andando pelo vale da sombra da morte, não precisamos temer mal algum, porque o Senhor está conosco.
Note que a promessa não é "você não sentirá dor", e sim "eu estou contigo". O vale continua sendo vale, mas ninguém o atravessa sozinho.
Não sofremos como quem não tem esperança
Paulo escreveu aos tessalonicenses que não queria que ficassem sem conhecimento sobre os que morreram em Cristo, "para que não vos entristeçais como os demais, que não têm esperança" (1 Tessalonicenses 4.13). Repare no que o apóstolo disse e no que não disse. Ele não proibiu a tristeza. Pediu que ela não fosse como a de quem não tem esperança. Há luto, e há esperança, ao mesmo tempo.
A base dessa esperança vem logo em seguida: se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, Deus também trará com Jesus os que nele morreram (1 Tessalonicenses 4.14). A ressurreição de Cristo é a garantia de que a morte não tem a última palavra. Paulo chama a morte de "último inimigo" a ser destruído (1 Coríntios 15.26). E o Apocalipse promete que Deus enxugará toda lágrima dos olhos do seu povo e que não haverá mais morte, nem pranto, nem dor (Apocalipse 21.4).
A esperança cristã não é a ausência de lágrimas agora. É a certeza de que elas não são a última palavra.
O que evitar e o que fazer ao acompanhar quem sofre
O livro de Jó oferece um aviso instrutivo. Quando os amigos de Jó souberam da sua desgraça, vieram e ficaram sentados com ele em silêncio durante sete dias (Jó 2.13). Foi o melhor que fizeram. O problema começou quando passaram a explicar por que aquilo teria acontecido. Seus discursos acabaram repreendidos por Deus.
Com isso em mente, algumas atitudes ajudam mais do que muitas palavras:
- Evite explicar a dor. Dizer "tudo tem um propósito" ou "Deus levou porque precisava" costuma ferir mais do que consolar. Quando não temos certeza, o mais honesto é dizer: "Não sei por que, mas estou aqui".
- Faça presença concreta. Leve uma refeição, ajude com tarefas práticas, ligue de novo semanas depois, quando a maioria já voltou à rotina.
- Chore com quem chora. Paulo nos exorta: "alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os que choram" (Romanos 12.15).
- Respeite o tempo do outro. O luto não segue um calendário. Há quem se recupere devagar, e isso não é falta de fé.
Se você está de luto agora
Algumas sugestões simples, sem fórmulas:
- Seja honesto com Deus. Os Salmos mostram que ele aguenta a sua sinceridade, inclusive a raiva e a confusão.
- Não carregue sozinho. Procure sua igreja, um amigo, um pastor. Deixe que as pessoas se aproximem.
- Cuide do corpo: durma, coma, descanse como puder. O luto é cansativo.
- Reserve tempo para lembrar. Recordar quem partiu, com gratidão e com lágrimas, é uma forma de honrar.
- Se a tristeza for tão intensa que você não consegue manter o básico por semanas, ou se surgirem pensamentos de desistir da vida, procure ajuda profissional e converse com alguém de confiança. Buscar apoio não é falta de fé, é cuidar de uma dor real. No Brasil, o CVV atende 24 horas pelo telefone 188.
O luto cristão não é um estado de negação, nem uma corrida para "superar". É um caminho percorrido na companhia daquele que chorou no túmulo de um amigo e que prometeu ressuscitar os que nele creem. Se quiser continuar a leitura, o Salmo 23 e o texto sobre a fé quando tudo parece perdido podem acompanhá-lo. Que o Deus de toda consolação esteja perto de você agora.