Uma das experiências mais fortes de leitura bíblica é abrir o Salmo 22 e, em seguida, os relatos da crucificação. Davi escreveu esse salmo cerca de mil anos antes de Jesus, numa época em que a crucificação nem existia como método de execução. Mesmo assim, o texto descreve uma cena que os evangelhos registram quase palavra por palavra.
"Deus meu, por que me desamparaste?"
O salmo começa com o grito que Jesus pronuncia na cruz, registrado em Mateus 27:46 e Marcos 15:34. Ao citar o início do Salmo 22, Jesus não estava perdendo a fé: estava recitando uma oração de Israel que termina em esperança. O salmo começa em abandono e termina em louvor, e Jesus conhecia o caminho inteiro.
As vestes repartidas e a túnica sorteada
No versículo 18, o salmista fala de pessoas que repartem as suas vestes e lançam sortes sobre a sua túnica. Mateus 27:35 e João 19:23-24 relatam exatamente isso: os soldados dividiram as roupas de Jesus e sortearam a túnica, que era inteiriça. João faz questão de dizer que isso aconteceu para que a Escritura se cumprisse.
"Repartem entre si as minhas vestes, e lançam sortes sobre a minha túnica." (Salmos 22:18)
Outros detalhes do mesmo salmo
O Salmo 22 também fala de zombaria diante do sofrimento, de sede intensa e de mãos e pés traspassados. Os evangelhos registram as zombarias dos que passavam pela cruz e a sede de Jesus ("Tenho sede", em João 19:28). Para quem lê com atenção, o salmo funciona como um roteiro escrito séculos antes.
Do sofrimento à vitória
O salmo não termina na cruz. Nos últimos versículos, o tom muda: todos os confins da terra se lembrarão do Senhor e se converterão a ele. Davi vê uma obra consumada e uma bênção que alcança as nações. É por isso que o Salmo 22 é tão usado para falar da paixão e da missão de Jesus.
Conhecer essas conexões fortalece a fé: a cruz não foi um acidente, mas o centro de um plano anunciado desde o início. E para quem passa por momentos de abandono, é um consolo saber que Jesus também percorreu esse caminho.